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DEZ POEMAS DE VICENTE MARTINSVicente MARTINS Cearense de Iguatu (CE), 39 anos, poeta e professor do Centro de Letras e Artes da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA, Sobral, CE) E-mail: vicente.martins@uol.com.br I – MASOQUISMO MATINAL Uma estranhíssima ansiedade de tirar a barba, Cabelinho por cabelinho. Cortar-me por uma distração qualquer e por um vampirismo ainda mais injustificável ver o sangue descer. II– SACO DE PANCADA Disse-te uma vez: és Emília, minha boneca de pano. Digo-te, agora: és Emília, bruxa insana que fez do meu coração um saco de pancadas. III - RENDIÇÃO Percorro o mundo mas volto a ti porque é no teu seio que está meu refúgio. Contemplo flores mas é no teu colo que encontro o mais belo jardim da vida. Tudo que escrevo, tudo que falo, tudo subjaz ao que faço mas o que sou é essencialmente construído por ti. Eis-me aos teus pés, senhora. Tua vida me faz homem mas é o teu amor que me transforma poeta. IV- DIVIDIR O PÃO Minha mulher me acha um pão Claro, isso é a mais pobre metáfora. Massa fina, massa grossa, Às vezes, sou joio; outras, sou trigo. Seja como for, tenho uma visão cristã de ser pão: O pão deve ser repartido. V- ANTES DA NOITE DE NATAL À noite, antevéspera natalina, o vizinho enfeita a sala, o jardim. O outro tem um pinheiro, um jasmim. Tenho, apenas minhas mãos e um coração cheio de solidão. Minha existência é o resto de festa. Minhas lágrimas, saquinhos coloridos de sangue, dor e noite. VI – ANTES DO CREPÚSCULO A solidão divide as nuvens; Entre os edifícios o meu peito arde, mas os olhos viajam... Ainda assim, tenho medo de subir as montanhas e não alcançar as nuvens ou, como pássaro, me renda no labirinto... VII - AUSÊNCIA A tua ausência Não é apenas o teu corpo ausente É minha alma sem mim; Nada fazendo significado, Navio perdido a bravo mar, Sensação de tempestade, Terremoto, Fim de vida, enfim, Se não encontro tua vida Dentro de mim. VIII - PAVOR TEOLÓGICO Tenho medo de não resistir a presença de Deus em minha vida. Tenho medo de que Ele me abrace e me beije e me homossexualize. IX - PRISIONEIRO Minha mãe é uma mulher de fé. Acho interessante a forma como minha mãe fala com Deus. Um dia, contou-me ela, segurou-O em pleno banheiro e Obrigou-Lhe a dar-me a cura. Imagino, então a zorra no Céu: o boato de que Deus é prisioneiro na terra pela fé de uma mulher. X – OLHANDO OS ABACATES À noite, lembram as cabeças dos alcatrazes, mas, num átimo, à guisa dos fantasmas, configuram-se em seios de canibais. Abrindo-os, estão lodosos, Vedoengos e nauseabundos. Lá, no núcleo selvagem, quase sempre, um homem nu, semi-morto, um corpo penoso, ancestral
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